O mundo e suas bosteadas. Não disse que eu voltava? Entonces.
Daí que minha querida mãe está se mudando para perto da minha casa. Que ma-ra-vi-lha… Vou deixar os motivos do total cagaço que isso me provoca para outro post, um bem comprido. Tão comprido que nunca começo a escrever. Enfim. O fato é que ela vem.
Num assomo surpreendente de generosidade, minha irmã e aquele membro da família que se fosse boa coisa não começava com a sílaba que começa, se ofereceram para levar a simpática velhinha até o aeroporto. Beleza.
Arrumamos – exposo e eu (exposo é OUTRO post) – tudo por aqui, compramos passagem, expliquei tudo para a irmã tintinzinho por tintinzinho (desde como se faz o check-in até a necessidade de adesivos imensos em cores berrantes para identificação da bagagem), enviamos uma cópia do bilhete para ela e ficamos sorrindo a esperar.
Dois dias passados, irmã me liga em tom visivelmente nervoso, entre a bronca e o choro:
-Vocês compraram passagem pra Guarulhos! Eu estava esperando Con-go-nhas!
-Tem menos passagem disponível para Congonhas, em geral mais caras. Mas qual o problema? Vocês vão de carro, a distância não é tão fantasticamente maior assim!
- Mas é em Guarulhos! Nós nunca fomos para Guarulhos! Não sabemos andar em Guarulhos! O teu cunhado disse que se for lá ele não vai!
- Você já ouviu falar de Google Maps?
Ela ignorou a resposta. Pedi um tempo, disse que exposo sabia melhor dar as indicações (eu não dirijo) e que assim que ele chegasse ia ligar para ela para explicar. Ela não quis, quis que ligasse direto pro excelentíssimo maridíssimo dela.
Exposo chegou. Ficou puto com a situação toda. Ok, ele tinha sua razão, mas claro, descontou em mim – ainda que chamando minha irmã de ridícula. Ok, eu sou o saco de pancada, todo mundo tem o direito de me tratar como der na telha. Ele não queria falar com o moço da sílaba suspeita.
E aí? Fiz como toda moça moderna. Como eu faço para ir a qualquer lugar. Dei uma googleada, achei uma maneira fácil de explicar e liguei para ele. Que claro, também estava bravo e me tratou feito um traste. Eu lá, toda resignação e paciência:
-Bom, é simples, você pega a marginal Tietê até a Ayrton Senna, antiga rodovia dos Trabalhadores…
-Eu não sei pegar a marginal Tietê, sei pegar a Pinheiros. Dá pra ir pela Pinheiros?
PUTA QUE ME PARIU. SE MATA. Um cara que tem carro há vinte anos, mora no Estado de São Paulo desde que nasceu não saber pegar a marginal Tietê é o cúmulo. E, porra, nem ter vergonha disso. Pega um mapa Quatro Rodas e disfarça, porra. Mané, mané, mané. Até eu sei pegar a marginal, só não sei dirigir o carro até lá.
-Manda ele trocar a passagem, porra! Não tem vôo por Congonhas?
-Olha, até deve ter, mas é mais que o dobro do preço. Aqui escolhemos bilhetes pelo preço, se é que me entende.
- Eu pago a diferença!
E o desejo profundo de mandar enfiar a diferença no cu, o que que a gente faz com ele? Disse que ia ligar pra ele no dia seguinte, né. Eu nasci mesmo pra Sofrenilda*.
Bom, o fato é que não mandei ele enfiar no cu e deixei pagar porque exposo acordou um sujeito tranquilo e foi procurar outro vôo em outra companhia aérea que saísse de Congonhas. Demos sorte, foi um pouco menos que o dobro do preço. E o mané vai pagar. MANÉ!
Eu não me conformo porque eu sempre cheguei na casa deles (em três ou quatro municípios diferentes, eles mudam muito) por minha própria conta e risco, com meia dúzia de indicações e/ou um mapa, muitas vezes carregando malas gigantescas. Ninguém ia me buscar em lugar nenhum, nem me levar de carro, nem eu jamais tive um. Neguinho tem inveja que eu viajei aqui e acolá, mas na maior parte do lugares (Brasília foi uma honrosa exceção, mas se precisasse, eu chegava, de algum modo) eu sempre me virei sozinha. Nunca ninguém perguntou como eu fazia.
Sou filha do meu pai, um cara que, igualmente, sempre chegou a qualquer ponto desse país com um mapinha xumbrega (antes, muito antes do satélite) e/ou meia dúzia de indicações. E ele tinha um puta senso de orientação, coisa que não tenho mas me viro ASSIM MESMO.
Saldo da história: nenhum, os lados todos ficaram quites. Só eu me fodi, claro, pra não perder o costume. Levei três broncas de três pessoas diferentes porque essa porra desse mundo não tem a menor consideração pela minha atitude não hostil frente à vida. Se fuder, todo mundo.
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